A papoila que não quer crescer.


A papoila que não quer crescer.

Nesta edição da Nata falo de uma hesitação estranha que tive quando me perguntaram se era formador — apesar de ter um curso que esgota há quatro turmas consecutivas. E do que isso diz sobre nós, portugueses, e a nossa relação torta com aparecer.

Olá amigos,

Alguém me perguntou há pouco tempo se eu era formador.

E eu hesitei.

Não porque não soubesse a resposta. Mas porque algures entre o cérebro e a boca apareceu um filtro que me fez querer dizer "tenho um curso, sim, mas não sei se sou bem formador formador."

Deixem-me dar-vos o contexto completo desta hesitação, porque é delicioso na sua absurdidade:

O Curso Completo de Voice Over esgota há quatro turmas consecutivas. Quatro. Sem exceção. Com lista de espera.

E ainda assim, quando alguém me pergunta se sou formador, o meu primeiro instinto é encolher.

Fiquei a pensar nisto durante dias. E percebi que não é modéstia. É outra coisa — uma coisa mais traiçoeira, que disfarça de humildade mas é, no fundo, medo.

É desta coisa que quero falar-vos hoje.

Existe um nome para isto

Os australianos chamam-lhe "Tall Poppy Syndrome" — a síndrome da papoila alta. Quando uma papoila cresce mais que as outras, cortam-na. Não por maldade — pela pressão silenciosa de que ninguém se deve destacar demasiado.

Em Portugal não temos o nome, mas temos a coisa toda.

"Não te ponhas acima dos outros." "Quem é que ele pensa que é?" "Cuidado que estás a ficar com a mania."

O que me fascina — e assusta — é que nós interiorizámos esse corte a tal ponto que nem precisamos que os outros o façam. Cortamo-nos a nós próprios primeiro. Antes de alguém nos questionar, já estamos a minimizar. É uma eficiência impressionante ao serviço da coisa completamente errada.

E não somos casos únicos. No Japão dizem "o prego que sobressai é o que leva martelada." Na Escandinávia existe a "Lei de Jante" — um código social que diz, em resumo, "não te aches especial." Em toda a parte onde há uma cultura forte de coletividade, existe uma versão desta pressão para não aparecer.

A diferença é que nós, portugueses, temos uma relação particularmente complicada com isto. Porque misturamos o medo de parecer convencidos com uma virtude genuína que admiramos: a humildade. E quando as duas se confundem, o resultado é invisibilidade disfarçada de caráter.

O que a marca pessoal se tornou (e por que é que isso é um problema)

Percebo muito bem por que é que muita gente tem alergia ao conceito de "marca pessoal."

Porque o que domina as redes sociais com esse nome é uma versão americana, barulhenta e polida até ao absurdo. O tipo num Tesla a convidar-vos para acordarem às 5 da manhã. O carousel com "7 hábitos dos milionários." A vulnerabilidade fabricada — a história do "rock bottom" com uma fotografia cinematográfica e uma citação de estoicismo.

O que começou como marca pessoal virou "branding performativo." Frases recicladas. Missões vagas. Conteúdo muito polido que diz muito mas não quer dizer nada.

E nós, com algum senso crítico, olhamos para isso e pensamos: "não quero ser assim."

O problema é a conclusão que tiramos a seguir: "então não faço nada." Como se as únicas opções fossem ser um charlatão americano ou ser invisível.

Não são.

A distinção que ninguém faz

Existe uma diferença enorme entre auto-promoção vazia e partilha de valor. Uma é ego. A outra é serviço.

Auto-promoção vazia é "olhem para mim, sou o maior." Partilha de valor é "aprendi isto, se calhar é útil para vocês."

A linha entre as duas não está onde pensamos. Não está na frequência com que aparecem. Não está no tamanho da audiência. Não está sequer no tom.

A linha está na intenção.

E o que descobri — e que me continua a surpreender — é que quando a intenção é genuinamente útil, a hesitação quase desaparece. A hesitação aparece quando, no fundo, sabemos que estamos a publicar para parecer bem, para alimentar o ego, para "estar presente" porque alguém nos disse que precisamos de estar.

O problema de muita marca pessoal não é que é demasiado. É que é oca.

Uma coisa que não me sai da cabeça

As marcas pessoais mais fortes em 2026 pararam de tentar estar em todo o lado. Estão a migrar para espaços que controlam — newsletters, websites, comunidades. E à medida que o mundo se enche de conteúdo gerado por IA, intercambiável e sem alma, o que se torna raro — e portanto valioso — é o ponto de vista único.

A perspetiva que só vocês têm, pela combinação específica de experiências e forma de ver o mundo que só vocês possuem.

A audiência tornou-se sofisticada. Sabe quando algo é falso. Sabe quando uma mensagem não tem profundidade. E por isso o caminho não é produzir mais — é produzir com mais substância.

Isto é, curiosamente, uma boa notícia para quem tem a mentalidade portuguesa de "menos é mais." Não precisamos de ser barulhentos. Precisamos de ser precisos.

O custo de não aparecer

Há um dado sobre o qual não consigo parar de pensar: 44% dos empregadores já contrataram alguém com base no que encontraram online. E 54% rejeitaram candidatos por causa da fraca presença digital.

Mas o lado mais traiçoeiro não é este — é o das oportunidades que nunca chegam sequer a existir. Não há email de rejeição. Não ficamos a saber que havia um convite, uma parceria, um projeto. Simplesmente nunca entramos na conversa.

E como não sabemos o que perdemos, continuamos a achar que está tudo bem.

Voltando a mim: quatro turmas esgotadas deveriam ser prova suficiente de que "sim, sou formador." Mas a síndrome da papoila não funciona com lógica. Funciona com medo — e o medo não precisa de factos para persistir.

O que eu continuo a aprender sobre isto

Gravei o episódio desta semana do Manual de Boas Ideias sobre marca pessoal à portuguesa e fiquei com uma sensação estranha depois de desligar o microfone. A de que havia uma camada que não explorei completamente.

A camada é esta: o bloqueio que temos com a auto-promoção não é filosófico. É emocional.

E a ironia — que só percebi quando comecei a aparecer apesar do medo — é que as pessoas que eu pensava que me iam julgar não estavam a prestar atenção. Estavam demasiado ocupadas com as vidas delas.

Não fazemos coisas por causa do julgamento de pessoas que estão, elas próprias, demasiado preocupadas com o que os outros pensam delas para nos julgarem a nós.

É uma das maiores ironias da existência humana. E é completamente libertador percebê-la.

Uma última coisa

Como vos dizia, esta semana publiquei um episódio do Manual de Boas Ideias exatamente sobre isto. É mais prático do que esta edição — tem exemplos concretos, uma framework e histórias que não cabem numa newsletter.

Se ainda não ouviram, está em manualdeboasideias.com. E se conhecem alguém que precisa de ler isto — alguém que faz um trabalho excelente mas continua invisível — mandem-lhe o link. É provavelmente a coisa mais útil que podem fazer por essa pessoa esta semana.

Até lá,
Diogo

P.S. Aquela hesitação quando me perguntaram se era formador? Ainda não desapareceu completamente. Mas já sei o nome dela. E quando lhe ponho nome, perde poder.

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